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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Dois estados é uma solução? Ou: Hudna, é possível negociar com o Islã?


 A solução dos dois estados não deve ser encarada com uma ideologia ou um mantra, mas como uma fórmula que deve ser julgada de acordo com a sua aplicabilidade prática.
 Itzhak Rabin e Yasser Arafat apertam as mãos durante o fracassado acordo de Oslo: para os tolos israelenses a paz, para os muçulmanos apenas mais um passo na destruição de Israel


As negociações de paz no Oriente Médio são um exemplo muito claro do que se chama 'guerra assimétrica' -- no caso negociações assimétricas: Israel quer e precisa de paz, o Islã não quer e nem precisa de paz. Pelo contrário, as negociações de seu lado são apenas um engodo permanente para desviar a atenção de seu real objetivo: a destruição do que eles chamam entidade sionista e a expulsão dos judeus de sua terra.


Entrevista com Abbas Zaki (um dos líderes do 'moderado' Fatah e da Autoridade Palestina) em um canal por satélite sírio, 23 de dezembro de 2013:


Apresentador da TV síria: "Quando eles falam sobre [os EUA] impor uma solução, sabemos que vai ela ser deficiente."

Membro do Comitê Central do Fatah, Abbas Zaki: "Você pode relaxar. Encontramo-nos unidos pela primeira vez. Até mesmo os mais radicais entre nós -- o Hamas ou as forças de combate -- querem um Estado dentro das fronteiras  de 1967. Depois nós teremos algo a dizer, porque a idéia inspiradora não pode ser alcançada de uma vez, [ao contrário, deve ser] em etapas."


Ao se referir ao "processo de paz" ou a panacéia pacifista da vez para o conflito entre o Estado de Israel e os grupos terroristas palestinos, nossa mídia mascarada tem evitado usar o termo Hudna, o lado palestino (árabe-muçulmano) da pantomima. 

E o que vem a ser isso? Hudna é uma palavra árabe que serve para designar aquilo que qualquer general conhece e que todo adversário preparado recusa e aproveita para atacar. Mas como foi um termo utilizado pelo profeta Maomé,  adquire uma espécie de aura respeitosa (ao menos para muçulmanos...) que aumenta o despistamento.

O termo é geralmente traduzido na imprensa ocidental como trégua de duração temporária pré-determinada -- nos jornais em inglês o seu equivalente é Truce -- para entabular negociações visando a paz. Mas esta tradução deixa de lado o significado religioso, histórico e mesmo o sentido atual dado ao termo pelos chefes das quadrilhas de guerrilheiros e terroristas islâmicos.

O Profeta Maomé, então exilado em Medina, era constantemente ameaçado pelos membros de sua tribo coraixita, que controlavam Meca (a cidade mais sagrada para os árabes) e não reconheciam sua liderança espiritual nem aceitavam seu monoteísmo. Após várias escaramuças, no ano de 628, Maomé ofereceu-lhes paz, prometendo a segurança de suas caravanas em troca da permissão de realizar os ritos de peregrinação anual à Caaba (1). 

Os coraixitas responderam que um ano de paz deveria preceder o acordo. Maomé declarou então uma trégua -– que denominou hudna -- de 10 anos, conhecida como acordo de Hodaibiah. Para consolar seus guerreiros o profeta muçulmano atacou e saqueou os judeus de khaibar em sua colônia a nordeste de Medina: noventa e três foram chacinados e os demais, para sobreviver, entregaram suas propriedades e metade de suas futuras colheitas.

Durante os dois anos seguintes, Maomé aproveitou a Hudna para reforçar seu exército e, como mestre do despistamento que era, usou a desculpa de uma infração menor qualquer cometida pelos coraixitas para lançar um ataque devastador, com um já considerável exército de 10.000 homens, e retomou Meca.

Este é o verdadeiro significado da hudna: acenar falsamente com uma trégua que não serve para o fim expresso –- preparar a paz -– mas para o fim secreto de descansar, reforçar e ampliar suas forças quando a situação é desesperadora e a derrota está próxima.

Historicamente este tem sido sempre o sentido dado pelas forças árabes em luta: acumular forças para o próximo round. Não é mais do que uma trapaça, “veneno com cobertura de mel”, como disse Gideon Meir, um antigo vice-ministro do exterior de Israel.


O PAPEL DA HUDNA NO ATUAL CONFLITO



Numa entrevista na TV Palestina, Abd Al-Malek, membro árabe do parlamento de Israel (é, lá no “território ocupado pelos sionistas” tem disto!), ao responder a uma afirmativa de um expectador de que “nosso problema com Israel não é um problema de fronteira, mas de existência...”, disse: “É, nós exageramos quando falamos de ‘paz’ .... quando o que nós realmente queremos dizer é Hudna”. E é aqui que vem o “pulo do gato” que quem entende árabe já percebeu há muito: quando as autoridades palestinas falam em seu idioma para seu próprio povo, e não nas entrevistas em Inglês em fóruns internacionais, eles usam Hudna e deixam claro que não há nenhuma paz em vista, mas apenas um cessar-fogo temporário que, além da finalidade tradicional já exposta, tem outra: a de iludir a tal “comunidade internacional”. 



Todos os acordos assinados por eles são pura farsa, e conseguem enganar direitinho aos trouxas que neles acreditam -- com direito até a Prêmio Nobel da Paz. Assim foi em 1994, quando Yasser Arafat explicou, em árabe, para os palestinos, que os acordos de Oslo eram uma Hudna no caminho para Jerusalém. 

Aqui vemos Yasser arafat explicando o motivo de ter assinado os Acordos de Oslo: 'Hudaybiya'



Depois, em 2000, seguindo o próprio profeta, seu mestre de despistamento, e usando como pretexto a visita de Ariel Sharon ao Monte do Templo (o lugar mais sagrado para o judaísmo, que os muçulmanos chamam de Esplanada das Mesquitas) criou a tal da "pequena infração inimiga" quebrando a Hudna e se lançando à nova guerra, conhecida como Segunda Intifada, ou Intifada de al-Aqsa.



O acordo de Hodaibiah é sempre mencionado como modelo para todo e qualquer ato de cessar-fogo assinado pelas autoridades, e compreendido como parte de um processo estratégico final: a libertação da "Palestina" e a expulsão dos judeus para o mar. Estes acordos são sempre assinados quando o balanço de força do momento está desfavorável às suas hostes.



ALGUNS EXEMPLOS DA “SINCERIDADE” PALESTINA – EM ÁRABE, EVIDENTEMENTE



Ministro do Abastecimento da Autoridade Palestina (AP), Abd El-Aziz Shahian: 

“Oslo é apenas o primeiro passo na destruição de Israel, não um acordo permanente”.


Pregador Dr Ahmed Yousuf Abu Halbiah, da AP: 
“A Nação Palestina é a vanguarda de Allah contra os Judeus, até a ressurreição dos mortos (...) até que o destino de Allah seja cumprido”.

Othman Abu Arbiah, assessor político e educacional de Arafat: 
”O Estado Palestino com capital em al-Quds (Jerusalém, em Árabe) é apenas o primeiro estágio (...) na destruição dos colonizadores sionistas”.

Sheik Yousuf Abi Snina, pregador da mesquita al-Aqsa:
“A terra Palestina é terra Waqf que pertence aos fiéis do Islam desde o início dos tempos e ninguém tem o direito de (...) fazer concessões ou de abandona-la. (...) São traidores e criminosos que merecem o Inferno todos os que aceitam a existência de Israel, que inclui ceder Haifa, Lod, Nazareth e Ashkelon”. No mesmo sermão concede a Arafat um Selo de Aprovação Shariático (Lei Islâmica) para estabelecer uma hudna.

Salim Alwadia Abu Salem, supervisor para assuntos políticos da AP: 
“Quando nós pegamos em armas em 1965 e teve início a moderna revolução Palestina, nós tínhamos um único objetivo, que não mudou e não mudará nunca: a libertação da Palestina (da ocupação sionista)”.


Os milhares de exemplos são todos repetição ad nauseam da mesma cantilena.


CONCLUSÕES

As mensagens de paz das lideranças israelenses e árabes aos seus respectivos povos são exatamente o oposto uma da outra (2).

Os líderes israelenses estão dizendo: o acordo permanente será doloroso, mas devemos aceita-lo porque ele marcará o fim do conflito.

Os líderes árabes-palestinos, por sua vez, dizem: o acordo permanente será doloroso, mas devemos aceita-lo porque não significa o fim do conflito, mas é apenas uma fase do mesmo.


Dá para acreditar em Paz?



(1) Para mais detalhes históricos, ver meus artigos

sábado, 4 de janeiro de 2014

Gharqad, a "árvore dos judeus"

tree1.jpg
De acordo com a tradição islâmica, essa será a única árvore que não "delatará" os judeus para seus algozes muçulmanos


 A hora do julgamento não chegará até que os muçulmanos combatam os judeus e terminem por mata-los, e mesmo que os judeus se abriguem atrás de árvores e pedras, cada árvore e cada pedra gritará: “Oh, muçulmanos! Oh, servos de Alá, há um judeu atrás de mim, venha e mate-o”.
-- Hadith 6985 (Kitab Al-Fitan wa Ashrat As-Sa`ah)


Muitas vezes traduzido como "tradição", Hadith (plural em árabe: Ahadith) relata os ditos e atos de Maomé e é considerado uma  ferramenta extremamente importante para a compreensão do Corão e em matéria de jurisprudência. Os Hadiths, que eram transmitidos oralmente, foram avaliados e reunidos em grandes coleções nos dois séculos que se seguiram após a morte do profeta muçulmano. Estas obras são referidas em matéria de lei islâmica e história até hoje, apesar de não haver um consenso entre os diferentes grupos religiosos maometanos -- como sunitas, xiitas e ibadis -- que acreditam em diferentes coleções de Hadiths.

O Hadith do topo é muito citado por teólogos e líderes religiosos sunitas e muito popular entre seus seguidores -- estando, inclusive, no Estatuto do Hamas, em seu artigo 7º:

Art. 7º Em todos os países do mundo encontram-se muçulmanos que seguem o caminho do Movimento de Resistência Islâmica, e tudo fazem para apoiá-lo, adotando seu  posicionamento e reforçando a sua Guerra Santa (jihad). Por isso, é um Movimento universal, qualificado para esse papel devido à clareza de sua ideologia, superioridade de seus fins e sublimidade de seus objetivos. Nessas bases é que deve ser visto e avaliado, e é nessas bases que seu papel deve ser reconhecido.
(…)
o Movimento de Resistência Islâmica aspira concretizar a promessa de Alá, não importando quanto tempo levará. O Profeta, que as bênçãos e a paz de Alá recaiam sobre ele, disse: “A hora do julgamento não chegará até que os muçulmanos combatam os judeus e terminem por mata-los e mesmo que os judeus se abriguem atrás de árvores e pedras, cada árvore e cada pedra gritará: “Oh, Muçulmanos! Oh, Servos de Alá, há um judeu atrás de mim, venha e mate-o”.


No entanto há aqueles mais moderados, que discordam da forma como este Hadith é entendido pelo Hamas e pela esmagadora maioria dos líderes religiosos e fiéis muçulmanos. Estes afirmam que o texto está descrevendo um evento milagroso específico que ocorrerá perto do fim dos tempos. Ou seja, na opinião destes, uma decisão judicial não poderia ser derivada dali, pois o que há no texto é uma descrição, não uma prescrição. Para os que defendem essa tese o massacre de judeus com a colaboração de árvores e pedras também ocorrerá, mas não desde já...

Outros trazem suratas que falam sobre coexistência e tolerância. O grande problema é que, ao contrário de outras religiões que se baseiam em textos sagrados, o Islã faz uso da doutrina da revogação, na qual os pronunciamentos mais recentes de Maomé tornam nulos e sem efeito os seus ditos mais antigos. Quatro versos do Corão reconhecem ou justificam a revogação:   

 Surata 2:106 - "a vaca"

 مَا نَنْسَخْ مِنْ آيَةٍ أَوْ نُنْسِهَا نَأْتِ بِخَيْرٍ مِنْهَا أَوْ مِثْلِهَا ۗ أَلَمْ تَعْلَمْ أَنَّ اللَّهَ عَلَىٰ كُلِّ شَيْءٍ قَدِيرٌ
Quando cancelamos uma mensagem, ou a jogamos no esquecimento, nós a substituimos por uma melhor ou uma similar. Você não sabe que Deus tem poder sobre todas as coisas?


Surata 13:39 - "o trovão"

يَمْحُو اللَّهُ مَا يَشَاءُ وَيُثْبِتُ ۖ وَعِنْدَهُ أُمُّ الْكِتَابِ                  

Deus anula ou confirma tudo o que quiser, pois ele tem com ele o Livro dos Livros.



Surata 16:101 - "as abelhas"

وَإِذَا بَدَّلْنَا آيَةً مَكَانَ آيَةٍ ۙ وَاللَّهُ أَعْلَمُ بِمَا يُنَزِّلُ قَالُوا إِنَّمَا أَنْتَ مُفْتَرٍ ۚ بَلْ أَكْثَرُهُمْ لَا يَعْلَمُونَ
Quando substituimos uma mensagem com os outras, e Deus sabe melhor o que ele revela, eles dizem: Você inventou isso. No entanto, a maioria deles não entende.


Surata 17:86 - "A viagem noturna"

وَلَئِنْ شِئْنَا لَنَذْهَبَنَّ بِالَّذِي أَوْحَيْنَا إِلَيْكَ ثُمَّ لَا تَجِدُ لَكَ بِهِ عَلَيْنَا وَكِيلًا


Se quiséssemos, poderíamos tirar o que temos revelado a você. Então você não vai encontrar ninguém para interceder em teu nome diante de nós.


Ao invés de explicar as inconsistências em passagens que regulam a comunidade muçulmana, os juristas simplesmente reconhecem as diferenças e aceitam  que os versículos mais novos anulam os anteriores. 
A maioria dos estudiosos divide o Corão em versos revelados por Maomé em Meca, quando sua comunidade de seguidores era fraca e mais inclinada a concessões -- e quando ele ainda tinha a esperança de ser um novo profeta para judeus e cristãos --, e aqueles revelados em Medina, quando Maomé comandava uma força considerável e já tinha sido rejeitado por crentes de outras religiões. E é aí que mora o problema: os versos mais pacíficos e tolerantes são, em sua grande maioria mais antigos, e, portanto, revogados pelos mais novos -- e também mais violentos e mais intolerantes.   

Voltando ao hadith do topo, vemos o atual mufti (o mais alto cargo para um líder religioso) de Jerusalém usando o mesmo trecho para incitar os muçulmanos a atacar judeus:


O video começa com um moderador que apresenta o mufti no evento Fatah (do "moderado" Mahmoud Abbas). Ele lembra de outra crença islâmica logo nos primeiros segundos: que os judeus são descendentes de porcos e macacos.

 Nossa guerra com os descendentes dos macacos e porcos (os judeus) é uma guerra de religião e fé."

O mufti, além de não se distanciar desta declaração, acrescentou outra: que o objetivo do Islã é matar judeus.

Existem inúmeras coleções de hadiths, algumas das quais não são aceitas como confiáveis. No entanto, o mufti salientou que a crença de que os judeus serão mortos pelos muçulmanos como uma precondição para ressurreição é uma autêntica crença islâmica, porque esse hadith aparece na coleção al-Bukhari, que é considerada verdadeira e confiável. E essa não foi a primeira vez que o mufti se meteu em encrenca. Em outro discurso público ele afirmou que "os judeus são inimigos de Alá"...

Após críticas de líderes americanos o mufti da Autoridade Palestina tentou se explicar. Em um primeiro momento, disse que o discurso não foi uma "incitação à matança de judeus. Nós não podemos mudar os escritos religiosos históricos e nós não queremos mudá-los. No entanto, estamos falando agora sobre a realidade. A realidade é que queremos alcançar uma paz justa". Depois afirmou que seu pronunciamento foi maliciosamente editado.

Como resposta, a ONG que tinha publicado apenas um trecho do discurso resolveu não só exibir o discurso na íntegra como ainda respondeu as alegações do líder religioso:

 As declarações das duas mais altas autoridades religiosas da Autoridade Palestina são deturpações do que o mufti disse. Na verdade, as palavras que ele escolheu para fornecer um contexto mostram que ele citou este hadith que antecipa muçulmanos matando judeus para torná-lo [o Hadith] relevante para o conflito árabe-israelense atual.
 O mufti introduziu o hadith referindo-se aos "47 anos" do Fatah e da "revolução" palestina, desta forma colocando o hadith no contexto de hoje. Em seguida, ele acrescentou que este é um "hadith confiável" das coleções verdadeiras e de confiança, e parte da lei/crença islâmica aceita. Depois de citar o hadith, o mufti afirmou que os israelenses estão plantando a "árvore Gharqad em Israel e em torno dos assentamentos e colônias", sugerindo que Israel está se preparando para o momento em que os muçulmanos cumprirão este hadith vindo para matá-los. De acordo com a tradição islâmica a árvore Gharqad será a única árvore que não chamará os muçulmanos para matar os judeus que estarão se escondendo atrás dela. Ao dizer que israelenses já estão plantando estas árvores em torno de suas cidades, o mufti estava relacionando explicitamente o hadith sobre o assassinato de judeus com o atual momento. Ele não estava apenas citando "escritos religiosos históricos", como alegou.
Esse é o moderado mufti do moderado Fatah.

E o que pensam os árabes sobre isso? De acordo com uma pesquisa realizada nos territórios controlados pela Autoridade Palestina e em Gaza, 73% dos participantes  concordam com este hadith genocida. Outros 80% concordam com o artigo 15º contido no estatuto do Hamas, que defende a jihad e o uso de atentados suicidas. Outros 72% afirmam apoiar a negação de qualquer vínculo histórico dos judeus com a cidade de Jerusalém, e 6 em cada 10 são contra a existência de um estado judaico, não importando suas fronteiras...

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

As constituições dos países árabes e a fantasia de democracia na região

Ficheiro:WLM - roel1943 - Koran.jpg
O Corão é a constituição oficial do Arábia Saudita e a fonte de direito civil


O aspecto comum nas constituições de todos os países árabes  é o Islã ser a religião do estado. Até aí, não há maiores problemas, pois há países democráticos que possuem uma religão de estado. Entretanto, em várias das constituições, além da determinação de que o Islã é a religião do estado, há determinação no sentido de que a Sharia (lei islâmica) é a principal fonte do direito. E, nesse caso, a democracia mostra-se inviável, pois a fonte primaz do direito é, por definição, excludente, o que impede, também por definição, a participação de todos, indistintamente, no processo político. E, por processo político não se entenda apenas eleições. As eleições, conquanto livres, são só um passo no processo político democrático.

O método de análise utilizado foi o seguinte: Se, ao consultar a constituição de determinado país, deparamo-nos com um dispositivo determinando ser a Sharia a fonte principal do direito, isso já é o suficiente para eliminar a possibilidade desse país ser minimamente democrático. Se não há tal determinação, a análise continua, passando pelos direitos e garantias individuais e pelas disposições sobre o poder executivo e o chefe de governo.


Comecemos com as constituições que dispõem expressamente que a Sharia é a fonte principal do direito:

Iêmen
Artigo 3º: A Sharia islâmica é a fonte de toda a legislação

Arábia Saudita
Artigo 1º: O Reino da Arábia Saudita é um estado árabe islâmico soberano com o Islã como sua religião; o Livro de Deus (Corão) e a Sunnah de Seu Profeta, orações de Deus e a paz esteja sobre ele, são a sua constituição, o árabe é sua língua e Riad é a sua capital

Aqui a Sharia não só é a fonte principal do direito; é a própria constituição.

Síria
Artigo 1º
(1) A República Árabe da Síria é um Estado popular, socialista, democrático e soberano. Nenhuma parte do seu território pode ser cedida. A Síria é um membro da União das Repúblicas Árabes.
(2) A região Árabe Síria é uma parte da pátria árabe.
(3) As pessoas na região Árabe Síria são uma parte da nação árabe. Elas trabalham e se esforçam para alcançar a unidade abrangente da nação árabe.

Na Síria, não só a jurisprudência islâmica é principal fonte do direito, mas a constituição define o estado como socialista. Democracia mandou um abraço.

Sudão
Artigo 5º
A legislação nacional promulgada com efeito apenas em relação aos estados do norte do Sudão terá como suas fontes de legislação islâmica  a Sharia e o consenso do povo.

Kuwait
Artigo 2º: A religião do Estado é o Islã, e a Sharia islâmica será a principal fonte de legislação.

Emirados Árabes Unidos
Artigo 7º: O islamismo é a religião oficial da União. A Sharia islâmica será a principal fonte da legislação na União. A língua oficial da União é o árabe.

Barém
Artigo 2º: A religião do Estado é o Islã. A sharia islâmica é a principal fonte de legislação. A língua oficial é o árabe.

Catar
Artigo 1º: O Catar é um estado árabe independente. O Islã é a religião do Estado e a sharia islâmica é a principal fonte de suas legislações. Ele tem um sistema político democrático. A língua oficial é o árabe. O povo de Qatar é parte da nação árabe (ummah).

Omã
Artigo 2º: A religião do Estado é o Islã e a sharia islâmica é a base da legislação.


Passando aos países cuja constituição não define expressamente a Sharia como fonte do direito, temos o seguinte:

Argélia
Artigo 2º
O Islã é a religião do Estado.

Artigo 9º
As instituições não são permitidoa:
- Práticas de nepotismo, regionalistas e feudais;
- A criação de relações de exploração e de ligações de dependência;
- Práticas que são contrárias à ética islâmica e aos valores da revolução de novembro

No caso da Argélia, vemos que a constituição proíbe instituições que sejam contrárias à ética islâmica. Dessa forma, ainda que a constituição não afirme expressamente que a principal fonte do direito é a Sharia, toda a vida política e civil do país é passível de ser limitada por valores religiosos, impedindo que liberdades elementares sejam exercidas.


De acordo com o governo dos Estados Unidos, a "constituição da Jordânia estabelece que a religião do estado é o Islã, mas prevê a liberdade de praticar os ritos de outras religiões (desde que reconhecidas pelo Islã e, consequentemente, pelo estado) e fé, de acordo com o costumes que são observados no reino, a menos que eles violem a ordem pública ou moralidade. A constituição observa que a religião do estado é o Islã e que o rei deve ser muçulmano e que o governo concede primazia à Sharia (lei islâmica). 
A constituição também estipula que não haverá discriminação nos direitos e deveres dos cidadãos em razão da religião, no entanto, a aplicação da Sharia pelo governo infrinje as liberdades e direitos religiosos estabelecidos na constituição,  proibindo a conversão de um muçulmano para outra religião e permitindo a discriminação religiosa de minorias em algumas questões relativas ao direito de família. Os membros de grupos religiosos não reconhecidos também enfrentam discriminação legal."



Todos os paises acima mencionados são, atualmente, em maior ou menor escala, ditatoriais. Por mais que a onda iniciada na Tunísia e  no Egito continue se espalhando na região, o máximo que podemos esperar é a deposição do ditador atual. Porém, sem que a essas eventuais deposições sigam uma verdadeira reforma dos estados - passando, necessariamente, pela elaboração de novas constituições, os ditadores passarão, mas as ditaduras permanecerão. E a democracia permanecerá a ser, apenas, uma fantasia.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Jizya - tributando os infiéis


O retorno da jizya. Historicamente, os não-muçulmanos tinham de pagar tributo aos seus mestres islâmicos. Esta prática foi interrompida no século 20, graças à intervenção européia. Hoje ele está de volta graças à intervenção ocidental.



Notícias estão chegando que a Irmandade Muçulmana e os seus simpatizantes estão forçando os cerca de 15 mil cristãos coptas da aldeia de Dalga, no sul da província de Minya, a pagarem a jizya – o dinheiro, ou tributo, que os "povos do livro" (judeus e cristãos) conquistados, historicamente, tiveram que pagar aos seus senhores islâmicos "com submissão voluntária e sentindo-se subjugados" para salvaguardar a sua existência, conforme indicado no Corão, Surata 9:29.

Esse idéia está fundamentada no tradicional conceito de dhimma (lei de proteção), estendido pelos conquistadores muçulmanos a cristãos e judeus em troca de subordinação. Todavia, o francês Jacques Elul, autoridade no assunto, assinalou: "Devemos nos perguntar: protegidos de quem? Quando o ‘estrangeiro’ vive em países islâmicos, a resposta só pode ser: dos próprios muçulmanos".

Os povos submetidos à lei islâmica em geral tinham que optar entre morte e conversão, mas judeus e cristãos, como adeptos das Escrituras, tinham permissão, como dhimmis (pessoas protegidas), para praticar suas respectivas crenças. Entretanto, essa "proteção" pouco fez para garantir que ambos fossem bem tratados pelos muçulmanos. Pelo contrário, um aspecto integral do dhimma era que, por ser um infiel, tinha que reconhecer abertamente a superioridade do verdadeiro crente: o muçulmano.

Nos primeiros anos da conquista islâmica, o "tributo" (ou jizya) pago anualmente como um imposto individual simbolizava a subordinação dos dhimmi. Mais tarde, o status inferior de judeus e de cristãos foi reforçado por uma série de regulamentos que regiam a conduta dos dhimmis. Sob ameaça de morte, eles eram proibidos de zombar do Corão, do Islã ou de Maomé, ou criticá-los; de fazer proselitismo entre muçulmanos ou de tocar uma mulher muçulmana (embora um muçulmano pudesse ter uma não-muçulmana como esposa). Os dhimmis estavam excluídos de cargos públicos e do serviço militar e proibidos de portar armas. Não podiam montar cavalos ou camelos, construir sinagogas e igrejas mais altas do que as mesquitas, erguer casas maiores do que as dos muçulmanos ou beber vinho em público. Eram obrigados a vestir roupas que os distinguissem e não podiam rezar em voz alta – já que isso poderia ofender os muçulmanos. Eles também tinham que se humilhar publicamente perante os muçulmanos, por exemplo, cedendo-lhes sempre a passagem nas ruas. Tampouco lhes era permitido apresentar provas contra um muçulmano diante de um tribunal e seu juramento na corte islâmica era inaceitável. Para se defender, o dhimmi tinha que pagar um alto valor por testemunhas muçulmanas, o que o deixava com poucos recursos legais quando prejudicado por um muçulmano.

No início do século XX, o status do dhimmi em terras muçulmanas não melhorou de modo significativo. H.E.W. Young, vice-cônsul britânico em Mosul (no Iraque), escreveu em 1909: "A atitude dos muçulmanos com relação a cristãos e judeus é a de um senhor com seus escravos, a quem trata com uma certa tolerância senhorial, desde que se mantenham no seu devido lugar. Qualquer sinal de pretensão à igualdade é prontamente reprimido."

A coleta da jizya de não-muçulmanos foi interrompida no século 20, graças à intervenção européia. Hoje, a jizya e outras injustiças contra os cristãos no Oriente Médio – na Líbia, Egito, Síria e Iraque – voltaram precisamente graças à intervenção ocidental, neste caso, o apoio dos EUA de Obama para a Irmandade Muçulmana e suas ramificações jihadistas.

Agora que os ataques contra igrejas cristãs no Egito têm diminuído, a segunda fase da jihad – ou seja, lucrar com o medo e o terror causado na primeira fase – está se instalando: notícias estão chegando que a Irmandade Muçulmana e os seus simpatizantes estão forçando os cerca de 15 mil cristãos coptas da aldeia de Dalga, no sul da província de Minya, a pagar a jizya.
Segundo o Padre Yunis Shawqi , que falou ontem aos jornalistas do Dostor em Dalga, todos os coptas na aldeia, "sem exceção", estão sendo obrigados a pagar o tributo, assim como seus antepassados ​​fizeram quase 1.400 anos atrás, quando a espada do islã originalmente invadiu o Egito cristão. Ele disse que o "valor do tributo e a forma de pagamento variam de um lugar para outro na aldeia, de modo que, de alguns espera-se pagar 200 libras egípcias por dia, outros 500 libras egípcias por dia ..."

 Em alguns casos, aqueles que não podem pagar têm sido atacados, suas esposas e filhos espancados ou seqüestrados. Como resultado, cerca de 40 famílias cristãs já fugiram de Dalga , juntando-se à lista crescente de cristãos deslocados no Oriente Médio. 

 E o mesmo ocorre na Síria e no Iraque. "Rebeldes" foram recentemente à "loja de um homem cristão e deram-lhe três opções : tornar-se muçulmano, pagar 70 mil dólares americanos como um imposto que incide sobre os não-muçulmanos, conhecido como jizya, ou ser morto junto com sua família.
Androus de Mosul, no Iraque diz que recebeu um pedido semelhante por telefone. 'Porque vocês são infiéis, vocês tem que pagar jizya", ele lembrou o que lhe foi dito pelo o telefone. "Ou você paga jizya  ou vamos matar você ou o seu filho."

"Combatei aqueles que não crêem em Alá nem no último dia, que praticam o que foi proibido por Alá e Seu Mensageiro, e não reconhecem a religião da verdade, mesmo que sejam dos Povos do Livro, até que paguem a Jizya com submissão voluntária, e se sintam subjugados ". - Corão 09:29


E você, já pagou sua Jizya?